terça-feira, 20 de outubro de 2015

Eva Furnari



Eva Furnari é uma entre poucos autores de livros infantis que dominam com maestria as artes da redação e da ilustração. Verdade que suas ilustrações são bem marcadas, você bate o olho e vê que é Eva Furnari. Mas apesar do repertório estético um tanto limitado, se a compararmos a um artista como Renato Moriconi, por exemplo, seus desenhos são extremamente expressivos, engraçados e cheios de detalhes que contribuem para a narrativa. Não é a toa que a autora começou a carreira com livros-imagem, inspirados nas histórias em quadrinhos.


Quanto à composição do texto, o brilhantismo de Eva Furnari consiste em saber combinar demandas muitas vezes contraditórias de públicos diversos: em primeiro lugar, o pressuposto destinatário do livro infantil – a criança; em segundo lugar, o sistema educacional, principal responsável (pelo menos no Brasil) pelo que as crianças lerão; em terceiro lugar, a crítica especializada. Porque os livros de Eva Furnari são muito prazerosos de ler, engraçados, ricos em jogos de linguagem que deliciam as crianças. Possuem também muitas vezes elementos pedagógicos que os levarão a serem selecionados para leitura nas escolas. E, por fim, são livros que fogem dos lugares comuns, inovam e dão relevo às potencialidades estéticas da língua, o que é importante para a crítica literária.

Como exemplo, cito Felpo Filva (Moderna, 2006), a história de um coelho poeta que sofre de solidão por ter as orelhas desiguais. Um dia ele recebe a carta de uma fã com críticas ao pessimismo de seus poemas. Furnari trabalha, na correspondência de Felpo com a coelha Charlô, diversos gêneros textuais: poema, carta, receita de bolo, telegrama, bula de medicamento, cartão postal, conto de fada, fábula, canção. Um prato cheio para as professoras de redação. Mas Eva Furnari consegue ser pedagógica sem ser insípida, e toda a brincadeira com os gêneros textuais é uma experiência com a língua, muito bem-humorada e sonora.

Outro dos meus personagens preferidos é o Lolo Barnabé (Moderna, 2000), um homem das cavernas que, junto com a mulher, desenvolve toda uma parafernália tecnológica em prol de seu conforto, e com isso vai criando outros problemas que ele resolve com mais parafernália tecnológica, num ciclo sem fim. É toda a história da civilização na vida de um só indivíduo – que, no fim do livro, vai fazer uma fogueira no quintal com a família pra tentar achar uma solução para sair da encrenca em que se meteram.

Cocô de passarinho (Cia das Letrinhas, 1998) é outro livrinho genial, com um trabalho fantástico de ilustração. Este narra a rotina de uma pequena cidade de seis habitantes, que todas as tardes se reuniam sob uma árvore onde habitavam seis passarinhos. A conversa, que era todo dia a mesma, não podia ser mais contemporânea:

       - Que calor.
       - Calor horrível.
       - Como vão os negócios?
       - Vão mal.
       - Ano que vem vai ser pior.
       - Vai.

Tendo retratado a árvore com os habitantes embaixo para introduzir a narrativa, Eva Furnari passa a apresentar ora as pessoas, ora os pássaros, num movimento que se assemelha a uma câmera de vídeo subindo e descendo. Afinal, uns não veem os outros. Os moradores da cidade somente se dão conta de que os passarinhos existem por causa do cocô na cabeça – problema que os leva a mudar um pouco a conversa para encontrar uma solução.


Pessoalmente, acho muito rico quando um livro infantil traz alguma questão social, alguma crítica à maneira como vivemos, mesmo que de maneira sutil. Melhor ainda quando a questão é colocada de forma aberta, de modo a possibilitar ao leitor uma leitura e uma reflexão próprias. É o que faz Eva Furnari. Contrasto sua postura com a de Sylvia Orthof, que embora tenha o mérito de questionar o status quo, o faz de maneira igualmente dogmática. Em Fada cisco quase nada (Ática, 1997,– livrinho, aliás, ilustrado pela Eva Furnari), para criticar o excesso de organização exigido das crianças, Orthof exalta a bagunça como uma condição natural da infância, e só falta escrever uma moral no final da história: "Melhor bagunça do que ordem" (gosto do livro, no entanto). Mesma coisa em seu célebre Uxa, ora fada, ora bruxa (Nova Fronteira, 1985), que não apenas subverte a ordem clássica da boa moça, mas defende uma nova ordem marcada pela transgressão (este, para mim, começa bem e depois descamba). Sem desmerecer o papel de Sylvia Orthof na literatura brasileira, especialmente durante a redemocratização, me agrada mais a postura de Furnari, que deixa ao leitor a tarefa de tirar suas conclusões (como em Cacoete, Ática, 2005).

Finalmente, não posso deixar de lembrar os nomes esdrúxulos que Furnari adora inventar, seja para seus personagens, cenários ou objetos, como em Umbigo indiscreto (Moderna, 2010), que se passa na Bolofofolândia.

Eva Furnari é, assim, um dos grandes nomes da nossa literatura infantil, justamente premiada e traduzida no exterior. É possível vê-la e ouvi-la, com seu jeito terno e encantador, neste videozinho produzido pela Moderna, editora com a qual Furnari agora tem contrato de exclusividade: http://bibliotecaevafurnari.com.br/videos  

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Bartolomeu



Bartolomeu Campos de Queirós é um daqueles autores indigestos. Justamente por isso talvez seja o meu grande autor canônico de literatura infantil. Digo indigesto porque ele toca questões sociais que não ousamos apresentar às crianças, senão apaziguadas com muita fantasia. No maravilhoso mundo da cultura infantil, nada existe de fato, o lixão, a miséria, a desertificação do país... tudo é longe, tudo pode ser vencido. (Aliás, isso pede um outro post sobre o tratamento das questões ambientais na literatura infantil).

Bartolomeu, assim como Ângela-Lago, faz crítica social em livros para crianças. Se a crítica é dirigida aos adultos mediadores ou se pretende criar uma consciência social nas crianças importa menos que o diálogo que se travará entre a criança e o mediador a partir da leitura de seus livros. Possivelmente o mais incomodado será o adulto.

Apesar de indigesto, Bartolomeu conquistou certa popularidade. Até o portal da editora Abril traz recomendações de livros seus. São muitos, e infelizmente ainda conheço apenas alguns poucos.

O primeiro livrinho do Bartolomeu que me chegou às mãos, com uma ilustração que achei feia a princípio, foi Pé de pato, sapato de pato (Editora do Brasil, 2009). Não era bem aquela capa bonita que me atrairia. Foi por acaso: minha irmã selecionou aleatoriamente alguns livros da biblioteca infantil do órgão onde trabalha para trazer pras minhas filhas, e veio esse.


É daqueles livros preparados para a escola, com ficha de leitura e tudo. Cheio de aliterações e jogos de palavras (como mostra o título), é um brinquedo de língua. O foco do Pé de pato... não é apresentar qualquer mazela social, mas simplesmente ser lúdico. Daí você se apaixona pelo Bartolomeu e escuta o que ele vai falar em outros livros menos ternos.

O segundo livro dele que chegou por aqui foi Somos todos igualzinhos (Global, 2006) – este com uma interessante ilustração minimalista do Guto Lacaz. Ácido e engraçado, entre galinhas e pintos, Bartolomeu apresenta uma leitura dos processos de massificação na sociedade.

Já pelo nome do autor, achamos na biblioteca O guarda-chuva do guarda (Moderna, 2004), um livro de poemas mais ameno, com ilustrações fofinhas da Elisabeth Teixeira.

Mas o que me deu mesmo um soco no estômago foi Mais com mais dá menos (RHJ, 2011, 2a ed.), um texto para leitores mais fluentes com muita realidade e pouca esperança. Ele começa parecendo um livrinho pedagógico, falando do menino que não gostava de emprestar as coisas. Mas ao contrário do enredo mais recorrente nessa temática – o egoísta sempre acaba se redimindo, quando vê que sem compartilhar ele vai ficar sozinho –, Bartolomeu transforma o menino em um grande empresário, explorador dos pobres. O ciclo de opressão se perpetua, assim como é.

Se lhe falta a saída, cabe a nós a criarmos. Nós, mediadores, junto com a criança. Bartolomeu é uma espécie de voz profética, que não teme expor a verdade, mesmo às crianças. Mas às vezes tenho a impressão de que quem não quer ouvir a verdade somos nós, e usamos as crianças apenas como uma desculpa para nos alienarmos no alto da última árvore da Amazônia.

sábado, 10 de outubro de 2015

Mary e Eliardo França: livros para os pequeninos



Sempre que alguém me pede indicação de livros para bebês ou crianças bem pequenas, indico Mary França e Eliardo França. Muita gente da minha geração certamente se lembra da coleção Gato e Rato, com texto da Mary e ilustrações do Eliardo. Além dessa, sempre recomendo a série dos Pingos, sete ratinhos com as cores do arco-íris, cada um com uma marca de personalidade característica. 

Pela encadernação, poucos mediadores atualmente se arriscariam a colocar esses livrinhos nas mãos dos pequeninos, porque não são cartonados. A capa é bem fuleira, num papel de gramatura menor do que hoje em dia se costuma usar em livros infantis, e as folhas são grampeados. Ou seja: livro pra destruir. Aqui eu já remendei vários, entre rasgos e folhas que acabam se soltando dos grampos de tanto manuseio. Fora os amassados. Mas vale a pena.

Primeiro, porque os livros são baratos – especialmente os da coleção dos Pingos. Depois, porque é importante que as crianças percebam que o papel é um objeto frágil, que amassa, rasga, e que aprendam a manuseá-lo. Acho bastante estranho quando algum adulto exibe, orgulhoso, os livros que guardou de sua infância, todos em perfeito estado. Livro novo é livro que ninguém leu, ou não releu, ou no mínimo não releu o suficiente.  

Katsumi Komagata, designer japonês e autor de livros infantis, relata que fabricou seu primeiro livro para sua filha pequena, e que a primeira coisa que ela fez ao recebê-lo foi rasgá-lo. Komagata conta que reparou o livro com fita adesiva e o devolveu a sua filha – que então passou a ter outra atitude. Ele defende que é importante que as crianças tenham acesso à matéria física delicada e frágil, em contraste com um teclado ou uma tela de computador, tablet ou celular, que você pode apertar e nada acontece.

Eu acrescentaria que livros de papelão grosso têm sua função, mas não vejo necessidade de restringir o contato da criança a livros resistentes pelo menos a partir de um ano de idade. Eles são capazes de aprender a passar uma página e a cuidar dos livros. Até livros pop-up podem ser apresentados a bebês, com a assistência de um adulto. Eles são curiosos, tentarão agarrar e arrancar a figura que salta da página. Mas é importante lembrar que o contato da criança com o objeto livro vale mais que um livro inteiro. Tendo dito o suficiente sobre a encadernação das obras dos França, e justificado por que metê-las, sim, nas mãos de bebês, vamos ao conteúdo.

Eliardo França é um artista plástico muito sensível ao universo infantil, com seus traços simples e suas cores vivas. Os livros das coleções Gato e Rato e Os Pingos usam muita aquarela. Mary França é certeira com a linguagem, rica em aliterações, assonâncias, uma ou outra rima e um ritmo cadenciado, em unidades de fôlego ideais para a leitura em voz alta. Uma característica de seu texto são as frases muito curtas, em ordem direta, em períodos com normalmente apenas uma oração. Eis um trecho de Chuva (Ática, 1998), um dos meus preferidos:

       Ana vê a chuva da janela.
       A chuva molha aqui e lá.
       Aqui, a chuva molha o telhado.
       Molha o gato no telhado.
       Lá, a chuva molha o mar.

É pelo texto, em sua relação com as ilustrações, que vejo Mary e Eliardo França como autores para a primeiríssima infância. O texto da Mary pode ser saboreado por crianças que ainda não falam, porque são som, música, cantados na voz da mãe ou do pai. E é a partir desse canto que as crianças conhecerão a linguagem, e é a linguagem do colo, do afeto, que elas amarão.

Além dessas duas coleções, o casal produziu juntos livros com textos maiores e poemas, de modo que os pequeninos, depois de alfabetizados e mesmo até a adolescência, podem continuar desfrutando de Mary e Eliardo. Cacho de histórias (Global, 2014, 3a ed.) é um deles, no qual Eliardo experimenta várias técnicas de pintura. O poema Nana, lindo, tem ilustrações que me lembram Chagall.



Não é à toa que receberam vários prêmios no Brasil, como o Ofélia Fontes, da FNLIJ, e no exterior, tendo sido indicados para o Hans Christian Andersen. Para começar bem.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Carlos Lébeis e A chácara da rua um



Emília, minha primogênita, começou cedo com as leituras de fôlego. Me lembro de amamentar a caçula enquanto lia As crônicas de Nárnia pra ela, que tinha só 3 anos e meio. Ela me interrompia o tempo todo perguntando o significado das palavras, levantava, ia fazer outra coisa. Eu dizia: “vamos parar, esse livro está muito complicado pra você”. Ela não deixava. E toda noite era assim, tínhamos de ler um capítulo inteiro.

Margarida, a segunda, já preferia textos mais curtos. Durante muito tempo eu e marido nos revezávamos: um lia livros compridos com Emília, o outro lia livros ilustrados com Margarida e Aninha. Agora, com quase quatro anos, senti que Margarida estava pronta para uma história mais extensa e elaborada. Eu tinha C.S. Lewis, Astrid Lindgren (Pippi Meialonga) e Lobato, mas não foi nenhum deles que escolhi para introduzi-la no mundo do romance. 

Foi um livrinho antigo que eu não conheci na infância, provavelmente por ter ficado muitos anos sem ser editado. Um livrinho bucólico, mágico, sem a ironia de Lobato, mas cheio de recursos literários que já não ousamos mais inserir em livros infantis: A chácara da rua um (Cosac Naify, 2014), de Carlos Lébeis. 

Lébeis foi contemporâneo de Lobato e participou, a partir da década de 1920, da renovação de nosso empoeirado acervo infantil. Não teve uma produção prolífica como a de Lobato, também não herdou a mesma fama. Mas é um autor nada desprezível, de quem a Cosac Naify resolveu republicar dois livros – No País dos quadratins (1928) e A chácara da rua um (1936) – e publicar o até então inédito Cafundó da infância (2011), este último com aquarelas de Anita Malfatti. No país dos quadratins (Cosac Naify, 2012) traz ilustrações de Cândido Portinari – que, sinceramente, prefiro em telas ou paineis.

Ainda não tive a oportunidade de ver as ilustrações da Anita Malfatti; o Cafundó da infância (Cosac Naify, 2011) ainda está dentro do plástico, guardado na nossa “caixa mágica” – ou arquivo de livros novos para serem dados às crianças em doses homeopáticas e em momentos oportunos. Mas confesso que o Portinari me decepcionou. Achei as ilustrações todas muito parecidas umas com as outras, como se ele estivesse mais fazendo experimentação com as figuras dos quadratins que de fato ilustrando um livro. Existe alguma coisa que se rompeu no diálogo entre o texto e a ilustração. Sem contar que são pouquíssimas e pequenas, e vários capítulos não trazem ilustração nenhuma. Melhor seria terem contratado outro artista para reilustrar o livro e trazer as ilustrações de Portinari em um apêndice, a título de curiosidade.

Prefiro as ilustrações clássicas e simples de João Fahrion na Chácara da rua um, e aqui começo falando do primeiro livrinho de fôlego apresentado à Margarida. São aqueles desenhos (a maioria preto e branco) feitos a partir das descrições do texto, ilustrações redundantes, sim, mas que ajudam o leitor a construir as imagens visuais que o texto verbal sugere. Há algumas incongruências com o texto – o Tizio, por exemplo, um menino negro, é branco na ilustração; e Calunguinha, o morador da jaqueira grande que tem menos de meio dedo de altura, parece bem maior nas figuras. Mas gosto delas, com seu desajeito. Elas têm cara de livro de infância.

O livro, como eu disse, é um romance. É para ser lido em capítulos, mais ou menos um por dia. Não lembro exatamente quantos são, mas terminamos a leitura em aproximadamente uma semana. É “o livro do Grão de Milho”, um menino com os cabelos amarelos como milho que certa noite é visitado por um homem em miniatura. O cenário, assim como em Lobato, é a roça, a chácara com suas árvores frutíferas e as brincadeiras de criança. Calunguinha, a mini-pessoa, é um de uma raça de sopradores de frutas, que habitam os troncos e galhos das árvores e fabricam as mais variadas frutas, enchendo-as como um balão. O livro joga com as dimensões espaciais, com o tamanho das coisas, como as Viagens de Gulliver: Grão de Milho encolhe para visitar o interior das árvores ao lado de Calunguinha, levando consigo seu cachorro Zigue-Zague.

Lébeis conta esta cativante história com uma linguagem cheia de repetições e bordões, enumerações e cantigas. “Quem é que pode com a minha vida?”, é o que sempre diz Calunguinha – que é pequeno porque quer – ao fim de seus discursos. E Margarida se apaixonou pela cantilena de Seu José Jardineiro: “Então que raça de bicho é? É jacaré? Também não é!” 

Supreendente também na Chácara da rua um é o final aberto, tão receado por escritores de livros infantis. Quando o círculo narrativo parece se fechar – o menino diminuiu, viveu a aventura e consegue crescer de novo –, Lébeis insere um capítulo no mínimo estranho, no qual Grão de Milho vê os avós e a Dindinha acenando da janela de um trem que parte. O menino tenta alcança-los saltando sobre outro trem, que corre no trilho ao lado, e vê o mundo todo passando, a chácara, a jaqueira grande, a jabuticabeira onde homens pequeninos sopravam as paredes, inflando as frutas que cresciam sobre os galhos... Zigue-Zague fica para trás, correndo e latindo atrás do trem, até virar um ponto minúsculo e desaparecer da vista de Grão de Milho. 

“Mamãe, e ele conseguiu buscar o cachorro depois?” “E porque os avós estavam indo embora?”. Perguntas inquietas de crianças habituadas a ler apenas finais claros, fechados e felizes.

Lébeis não explica mais muita coisa. João Fahrion, o ilustrador, conclui o livro com a imagem de Grão de Milho ao lado de Zigue-Zague, piscando pro leitor.

E eu tive de explicar a elas que assim a gente podia inventar o nosso final.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Leitura e afeto


A importância da leitura tornou-se um lugar tão comum quanto a constatação de que o brasileiro não lê. Multiplicam-se nas revistas para pais e mães matérias sobre a necessidade de apresentar as crianças aos livros o quanto antes, por razões que – imagino, porque nunca tive paciência para ler essas matérias a fundo –, dizem respeito ao desenvolvimento cognitivo da criança, ao processo de alfabetização, a habilidades intelectuais que serão cruciais para que aquele indivíduo vença na vida. E embora eu tenha apenas uma noção superficial do conteúdo dessas matérias, arrisco afirmar que minha imaginação tem pés bem fincados na realidade, porque é justamente o que vem escrito nos selos coloridos que trazem aqueles livros cartonados, sem autor, com texturas e brilhos: “estímulo visual”; “estímulo sensorial”; “aprendizado das cores”, entre outras mensagens promocionais inspiradas no Baby Einstein. Lembro inclusive de uma matéria afixada no quadro de avisos da antiga escola da minha filha que constatava a completa indiferença a respeito do que se lê. Importava apenas ler, sendo a leitura Lobato, gibi ou revista Veja. 

Que o brasileiro não lê, verdade tornada tão banal que já não se pensa sobre ela, lembramos apenas como mais um item no rol de lamúrias acerca da nossa condição de terceiro mundo (ou “país em desenvolvimento”, para não ser antiquada). Mas a sensação é a de que jogamos a toalha há muito tempo, e a verdade dada virou uma previsão astrológica. Não lemos, nem nunca leremos – aliás, se possível, leremos cada vez menos. (E que permaneça às traças a Biblioteca Demonstrativa de Brasília.)

Ocorre que a importância – ou melhor dizendo, a imprescindibilidade – da leitura na primeira infância, se queremos evoluir como sociedade, vai muito além de seus benefícios individuais. E mesmo na escala individual, a literatura não pode se restringir a um meio para que se adquiram habilidades utilitárias e profissionais, ou, em outras palavras: leio para o meu filho para que ele seja rico no futuro. Não se trata de construir capitais privados, voláteis e vazios. Trata-se de construir um indivíduo livre e comunitário. O direito à literatura, como ensina Antônio Cândido, é essencial para se escapar ao subdesenvolvimento.

E por que não lemos? Porque é mais legal jogar no Ipad, oras! Ou ver televisão, ou trocar mensagens pelo wattsap. Então o Governo faz campanhas e os educadores se matam para propagandear um hábito já obsoleto, sem muito resultado. Ler, muitos responderão, é chato.

E por que ler é chato? Não posso culpar a mídia eletrônica, que chegou não apenas para ficar, mas para evoluir de maneira atordoante e dominar todos os espaços que puder. Convivamos com isso. Ler é (considerado) chato porque a leitura está associada à instituição escolar. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida a cada três anos pelo Instituto Pró-Livro, constatou em 2011 que pela primeira vez os professores eram apontados como os principais iniciadores da leitura, e não mais as mães. Deslocou-se a literatura do colo para a carteira.

Bons livros não precisam de propaganda para competir com vídeos e jogos eletrônicos. O ser humano é naturalmente sedento de histórias, e é natural que uma criança bem pequena, que ainda não teve sua percepção afetada por estímulos exagerados que ela não consegue processar, fique fascinada com aquele objeto físico, concreto, palpável, que se abre e se fecha, que se rasga, com a virada de página e a descoberta de imagens coloridas e com os belos sons que brotam da boca da mãe. Sobre o efeito que a exposição de bebês à mídia eletrônica tem em sua recepção posterior dos livros, eu teria de falar em outra oportunidade.

O livro, portanto, deve ser visto pelo mediador, especialmente pais, avós, tios da criança, como um brinquedo, e não um “brinquedo pedagógico”, na acepção mais insípida da expressão, mas como um objeto de deleite para a criança. A criança não lerá porque é importante ler; ela lerá porque é agradável, fascinante, bom. Ela chegará ao ponto de, nem bem saiba caminhar em duas pernas, buscar a mãe pelos cômodos da casa com um livro na mão, pedindo: “lê, mamãe, lê!”. E a mãe não se sentirá culpada por, eventualmente, descartar uma oportunidade (em outras partes excepcional) de interesse da criança por um objeto de prestígio intelectual, e poderá dizer tranquilamente: “agora não, amor, mamãe está preparando o almoço”. Porque elas leem ao longo do dia tanto quanto brincam com brinquedos. Elas leem como respiram, porque o corpo pede.

É evidente que essa postura esbarra nas experiências do mediador com o objeto livro. Uma mãe, um pai ou mesmo um professor que sempre teve uma relação fria e utilitária com a literatura terá mais dificuldades para transmitir às crianças seu sabor. Mas nunca é tarde para começar, e a mediação da leitura com crianças pode despertar no adulto amores perdidos.

É necessário reaprender tudo. Alguém tem de nos dizer que é importante beber água, dormir, brincar. Coisas que os animais aparentemente não se esquecem de fazer. E alguém tem de nos dizer que é importante ler. Abrir mão do direito à literatura, ou não lutar por ele quando nos é negado, é perder uma oportunidade emancipatória, não apenas como indivíduos, mas também como sociedade. 

A melhor maneira de aniquilar as práticas literárias de uma comunidade é barrar o mediador. Quando as mães já não sabem, não podem, não querem ler para seus filhos, o colo já não é mais o lugar da literatura; o hálito materno já não é mais o aroma da literatura; a voz materna já não é mais o som da literatura. Perde-se o afeto que nos liga aos livros. E ler fica chato. E seguimos na nossa condição, individual e coletiva, de subdesenvolvimento.